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Agroecologia e a Luta Campesina: Continuando o Debate

A luta campesina não é importante por seu mundo ser um reduto pré-capitalista; seu objetivo não é esse mundo e tampouco é aquele de antigamente. Seu valor está em criar relações sociais distintas das capitalistas e oferecer métodos e práticas gestadas pelos trabalhadores. Por JG

Agroecologia e a luta campesina: continuando o debate

4 de Março de 2012  
Fonte: http://passapalavra.info/?p=53470

A luta campesina não é importante por seu mundo ser um reduto pré-capitalista; seu objetivo não é esse mundo e tampouco é aquele de antigamente. Seu valor está em criar relações sociais distintas das capitalistas e oferecer métodos e práticas gestadas pelos trabalhadores. Por JG

 

Qualquer projeto de sociedade precisa prever determinados tipos de relação entre o ser humano e o meio natural, já que estamos ligados a ele por necessidade e pela gravidade, pelo menos por enquanto. Sugiro pensarmos a discussão recente sobre a esquerda, o campesinato e a natureza com o pé no chão. Se começo com uma analogia com um quê de hippie, não é por outro motivo senão provocação, esse recurso retórico que por bem ou por mal incita ao debate, como temos visto aqui no Passa Palavra. Mas digo pé no chão também por outra razão: proponho começarmos pelos fatos dessa vez, a ver se chegamos às teorias. Quando o culto ao progresso leva à curiosa conclusão de que venenos usados na agricultura fazem bem à saúde [1], é bom partirmos do outro lado da equação – os fatos – já que as teorias tendem a ser mais falíveis que eles.

agroecologiaO ser humano precisa comer. Ao contrário das plantas e de certos micro-organismos, o ser humano necessita buscar nutrientes através da alimentação. Para viver, não basta qualquer coisa, são necessários açúcares, gorduras, proteínas, sais minerais, alguns metais em pequena concentração, e dezenas de tipos de vitaminas. Essa necessidade que parece exaustiva não costuma o ser, devido à grande variedade de alimentos que consumimos – embora haja no mundo quase um bilhão de pessoas famintas [2] e ainda mais pessoas desnutridas, a quem faltam determinados nutrientes, mesmo que possuam calorias suficientes na alimentação. Então, de uma maneira ou outra, teremos que produzir comida. Ora, a hegemonia do agronegócio não é capaz de alimentar adequadamente a população porque produz poucos itens, embora em quantidades cada vez maiores: soja, milho, trigo, arroz, além de produtos não alimentícios, como algodão e diversas plantas que produzem biodiesel. Aqueles que porventura gostem ou achem importante comer a diversidade de frutas, verduras e legumes existentes, necessitam hoje da agricultura familiar. De fato, é essa modalidade que produz a maior parte dos alimentos do país, embora ocupe apenas 24,3% da área utilizada na agricultura, e ela emprega mais de 70% dos trabalhadores rurais [3].

É verdade que várias sociedades agrárias sofreram ondas de fome em épocas anteriores à chamada Revolução Verde, mas isso é necessariamente uma exceção e não uma regra: o surgimento da agricultura em sua forma mais rudimentar, há mais de dez mil anos, foi o que possibilitou o crescimento exponencial da população humana e o estabelecimento das primeiras cidades, cujos moradores se dedicavam a outros empenhos que não produzir ou buscar sua comida, já que havia sobressalente.

A agroecologia, muito mais recente, não é a negação das técnicas na agricultura, mas sim o desenvolvimento de novas, associadas a antigas práticas que se revelaram produtivas e de baixo impacto. Segundo o relatório “Agroecology and the Right to Food”, apresentado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU [4], a adoção massiva da agroecologia poderia duplicar a produção de alimentos no mundo, especialmente em áreas devastadas ou consideradas impróprias para a plantação, devido às diversas técnicas de restauração existentes nos sistemas agroecológicos. O relatório também apontou que a produção agroecológica de alimentos fornece melhor nutrição que a do agronegócio, baseada quase que inteiramente em cereais; além de ser mais resistente a mudanças climáticas e menos dependente de combustíveis fósseis.

contra-agrotoxicosVenenos fazem mal. Os alertas sobre possíveis danos à saúde causados pelo uso de agrotóxicos na agricultura são já bastante antigos. Em 1962 Murray Bookchin [5] publicou seu primeiro livro, “Our Synthetic Environment”, no qual compila dados a respeito do uso de DDT nas plantações, demonstrando que o agrotóxico matava diversos outros animais além das pragas e adentrava na cadeia trófica, chegando inevitavelmente ao ser humano. O produto foi posteriormente proibido, assim como diversos outros agrotóxicos comprovadamente danosos. No Brasil o órgão que regula este uso é a Anvisa, que permite o uso de diversos produtos já proibidos na maior parte do mundo, o que contribui para o país alcançar o topo da lista de consumo de agrotóxicos, apesar de não ser o maior produtor agrícola do mundo [6].

O que leva um agrotóxico a ser proibido ou liberado? Certamente não é a correlação de seu uso com o aumento da expectativa de vida, ainda que ela exista para o uso de agrotóxicos como um todo – a mesma correlação existe entre o aumento da expectativa de vida e a queda do número de piratas no mundo, o aumento do interesse público por reality shows ou do nível de violência nas cidades. A diferença entre correlação e relação causal pode parecer sutil, mas é fundamental para a ciência, incluindo aí testes de toxicidade dos venenos agrícolas. Refiro-me então ao artigo do ecólogo [7] Jean Rémy Guimarães, da UFRJ, que compilou diversas revisões científicas demonstrando o impacto à saúde tanto nos agricultores, por exposição aguda ou crônica a agrotóxicos, causando mais de 350 mil mortes por envenenamento todo ano, assim como o aumento de casos de câncer nos consumidores dos alimentos produzidos com agrotóxicos [8]. Esses resultados não são novidade e a luta contra os agrotóxicos já é uma pauta dentro dos movimentos do campo, como demonstra a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos, iniciada em 2011 pela Via Campesina [9]. É interessante que esta iniciativa não parte dos consumidores, mas sim dos produtores, que têm um interesse direto nessa pauta tipicamente ecológica.

O impacto ao ambiente é um impacto aos que dele precisam. Por que o modelo do agronegócio, baseado na monocultura, precisa inevitavelmente de agrotóxicos? A plantação consecutiva de uma mesma planta por largas extensões de terra, especialmente quando se impede qualquer outra espécie de crescer no local, é um prato cheio para as pragas, que encontram um campo vasto para se multiplicar sem qualquer empecilho; quando todas as plantas foram produzidas das mesmas sementes, não há nem mesmo variação genética entre elas, que poderia acrescentar diferentes defesas ou adaptações nos organismos. Os sistemas agroecológicos se baseiam na plantação de dezenas ou centenas de plantas no mesmo espaço; cada uma pode ser atacada por algumas pragas diferentes, mas dificilmente a praga se espalha às outras plantas e sua tendência é se extinguir na região. Algo similar acontece com o solo, porque cada planta tem exigências específicas de nutrientes que se esvaem da terra quando ela é cortada. Para manter o solo apto ao plantio na monocultura, é necessária uma grande quantidade de adubos químicos, que não são meramente sintetizados em laboratório, mas retirados do solo de outros locais que contenham níveis maiores de nitrogênio, fosfato, etc., passando também por processos químicos industriais. Essa atividade impacta fortemente as regiões de onde se extrai o solo – quem já viu uma fosfateira notou a semelhança que possui a um sítio de mineração [10]. Em um sistema de múltiplas plantas, as exigências do solo são diversas e a renovação das plantas é contínua, de maneira que umas preparam o solo para as outras, devido à suas composições diferentes. É a isto que os ecologistas chamam de equilíbrio da natureza, que não é estático nem eterno, mas se mantido pode permitir aos agricultores produzir alimento sem riscos de contaminação, sem ter que abandonar a terra em poucos anos, ou sem se tornar inteiramente dependentes de produtos que encarecem a produção e financiam as empresas de agrotóxicos, fertilizantes, transgênicos, etc. Essa dependência não garante apenas um amplo mercado para essas empresas, mas também um controle cada vez maior sobre o quê e como se planta, retirando essa autonomia dos trabalhadores rurais.

Tanto na monocultura do agronegócio quanto nos empreendimentos necessários para sua manutenção, cursos d’água são contaminados, florestas são derrubadas e o ar é poluído. A natureza não possui mente nem vida própria para se sentir lesada, mas o mesmo não pode ser dito das populações humanas que dependem invariavelmente do ar e da água locais, quando não tiram sua própria vida do usufruto do que produziam as terras.

cafe-agroecologico-anna-dodesign-sPlantar pode ser bom. O avanço do agronegócio concentrou a posse da terra e acelerou o êxodo rural, acentuando o processo desordenado de urbanização característico das cidades brasileiras. A cidade concentra uma série de oportunidades que não existem no campo, incluindo serviços de saúde, educação, lazer e trabalho. A maior parte disso tudo não está acessível a quem não tenha dinheiro, e morar em regiões mais periféricas acentua essa exclusão; mas ainda assim a cidade parece oferecer mais do que o ermo campo. Esse é um verdadeiro dilema [11], mas não é um problema intrínseco do campo ou de quem se propõe a fazer agricultura. O campo não só pode ter hospitais e escolas, como também festas, internet banda larga e o que mais os camponeses quiserem. Alguns serviços precisam ser fornecidos pelo Estado e outros podem ser resolvidos pelas próprias comunidades; em ambos os casos, a organização das pessoas se faz necessária, seja para exigir do governo ou para criar e construir coletivamente o que for.

Por outro lado, nós citadinos também perdemos algumas coisas ao não estarmos próximos à natureza e afastados de algumas condições das grandes cidades: trocar banho de rio, comida fresca, bicho de pé e canto dos pássaros por ônibus lotado, roupa social, cinema e mercado 24 horas pode parecer melhor para a maioria dos leitores, mas não é óbvio para todos, especialmente àqueles acostumados com o campo. Além disso, uma análise do nosso entorno cotidiano revela imagens da natureza, flores, animais e paisagens nos quadros das paredes e estampadas em nossos pratos, roupas, toalhas e azulejos, o que parece indicar que são do nosso agrado. As moradas próximas a parques, florestas e praias são mais apreciadas, o que se reflete em seu custo maior, quando isso não implica também em distâncias muito maiores aos serviços da cidade. Também não há registro de algum perfume que busque imitar odores típicos da cidade e da indústria.

De qualquer forma, o que parece claro é que as principais dificuldades da vida no campo são circunstanciais, e a atuação dos movimentos sociais camponeses deve requerer também os meios e serviços que são anseios dos trabalhadores rurais [12].

*

Nada disso invalida a crítica ao estéril ambientalismo hegemônico defendido por certas ONGs, pela mídia e até por empresas, de propostas que são reformistas, quando muito, pois usualmente se trata de dar uma pintura verde ao capitalismo, já que a alcunha de sustentável agrega valor aos produtos e satisfaz a consciência dos consumidores. Quando propõe a todos a redução do consumo e o sacrifício individual em “benefício da natureza”, determinado ecologismo ignora a sociedade de classes onde vivemos, na qual os recursos são consumidos de maneira fortemente desigual. O cidadão médio americano, em 2008, emitiu 8 vezes mais CO2 que o brasileiro [13]. Os dados inexistem para diferenciar o consumo entre ricos e pobres, mas podemos esperar abismos ainda maiores entre as classes de cada país do que entre países.

O que se espera do ambientalismo pela esquerda é necessariamente tomar o ponto de vista dos trabalhadores. Afinal, os verdadeiros afetados com secas, enchentes, deslizamentos de terra, comida envenenada, derrubada das florestas, poluição da água, derramamento de metais pesados, etc., são justamente os mais pobres, os moradores dos morros, os indígenas, ribeirinhos e camponeses; aqueles que tiram o sustento diretamente do uso da natureza e os mais vulneráveis à perda desses recursos. Por certo não são eles os principais beneficiados com o modelo de desenvolvimento que leva a essas catástrofes, mas sim grupos empresarias e sua rede de apoio nas classes dominantes.

No que toca à produção de comida e à vida camponesa, há diversos interesses dos trabalhadores a se levar em conta. No curto prazo, é necessário que se produza alimento em quantidade suficiente, que o trabalhador possa usufruir do que produz e que não se exponha a rotinas extasiantes ou condições ruins de trabalho. Além disso, no médio e longo prazo é também interesse dos trabalhadores que estejam consumindo alimentos saudáveis, sem agrotóxicos que tragam problemas de saúde à sua família, além de não estarem danificando muito o ambiente no qual habitam e de onde tiram seu sustento, de modo que não necessitem migrar para novos locais mais distantes e com menor infraestrutura, nem perder seu vínculo com vizinhos, amigos e o próprio local.

O capitalismo falha em todos esses objetivos, o que explica que a vida no campo seja complicada e muitas vezes promova o êxodo rural assim que ele seja possível. O modelo do agronegócio, baseado na monocultura e no uso intensivo de insumos e veneno, mesmo se fosse coletivizado, ainda seria desfavorável aos trabalhadores rurais no médio e longo prazo, por produzir poucos tipos de alimentos, com uso de produtos nocivos, e pelo impacto no meio onde vivem.

trabalhador-ruralA luta campesina não é importante por seu mundo ser um reduto pré-capitalista; seu objetivo não é esse mundo e tampouco é aquele de antigamente. Seu valor está em criar relações sociais distintas das capitalistas e oferecer métodos e práticas gestadas pelos trabalhadores. Se é verdade que o socialismo não é a volta a um tempo pré-capitalista mas sim sua superação, também é verdade que ele só pode ser realizado pelos trabalhadores, através de seus métodos e não de outros. Para além da luta necessária pela terra, é no seio da organização do campesinato que se desenvolvem novas maneiras de responder às demandas básicas humanas e também outras que surgirem no caminho – nesse sentido deve caminhar a agroecologia, forjando um viver da natureza que seja do interesse dos trabalhadores em todos os níveis: emancipador, saudável, prazeroso na medida do possível, e tão livre quanto possa.

FONTE: http://passapalavra.info/?p=53470

Fonte: UFG/CAC